................................................... Ensaios e experimentos no universo das artes .............................................................

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Desdobramentos

A sensibilidade que se traduz assim...
Valeu, Andréa, por tudo, por muito...


Eis que o papel no acaso se tornou. De uma vez se fez um alguém, e enquanto as palavras traduziam-se em possibilidades, as ruas se escreviam como palavras. A luz cedeu lugar ao encontro. Casas transformaram-se em gestos, portões em emoções. Cores refizeram-se sensações. O que era certo virou raro, e inexato fez-se singular. Abrigado converteu-se em construído. A beleza se assumiu como clareza. O fiel se concretizou sublime. O sonho acordou e logo tratou de tornar-se realidade. Foi aí que a escrita revelou-se afinidade, o tempo ocupou-se de ser sentido, e o amor, transcendendo, declarou-se amizade.

(Andréa Silveira)

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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Revolução das Letras

Texto usado no artigo "Sublima-dor: considerações sobre dor e sublimação nos limites do pulsional", com a proposta de uma escrita que dá margem a outras significações, quando se faz a substituição das palavras à revelia dos seus desejos.


REVOLUÇÃO DAS LETRAS

Papel quis ser desencontro, viveiro transformou-se em silêncio. Abismo fez as vezes da luz, uma vez que vez cismou em ser morte. Ruas transfiguraram-se em letras, casas optaram por ser restos. Portões viraram buracos, e cores se firmaram como vazios. Certo decidiu ser cego. Escrita insistiu em ser dor. Abrigado se fez perdido. Caminho tomou o lugar da beleza. Nada substituiu o sonho. Fiel acabou sendo cruel. O amor fugiu e foi ser tempo. Enciumado, o tempo converteu-se em amor.


Assim sendo...


Era uma vez...

Um viveiro de palavras

Um distraído papel e...



Luz!



Por entre as ruas

Casas se espalham

Abrem seus portões

Criam cores infindas

Revelam o ponto certo

De um espaço abrigado

Na beleza entre o dito

E o que há de ser dito.



Nesse espaço

Surge ela.

É a escrita que vem

Essa escrita que não cala

Que gravita o sonho

No fiel tempo inexato do amor.


Priscila Catão
23/08/10
23h58

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

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Há algo que jamais se esclareceu
Onde foi exatamente que larguei
Naquele dia mesmo
O leão que sempre cavalguei

Lá mesmo esqueci que o destino
Sempre me quis só
No deserto sem saudade, sem remorso só
Sem amarras, barco embriagado ao mar


Inverno
(Adriana Calcanhotto)

domingo, 1 de agosto de 2010

Jazz e o 'jeitin' mineiro de se viver


Que Belo Horizonte só não é perfeita porque não tem praia, isso é fato. E é justamente diante dessa falta que o mineiro aproveita seus fins-de-semana em parques e praças, que no final das contas acaba virando um mar... de gente. Mas o que tanto os mineiros procuram nesses espaços públicos, tão estáticos e repletos de mesmice? Aí é onde Minas faz a diferença, sobretudo em julho, quando todos desengavetam seus sobretudos e vão curtir um friozinho. Frio básico, nem muito, nem pouco. A diferença é que, de quando em vez - e em julho, de vez em sempre - encontramos de surpresa os palcos lá montados (sim, de surpresa, porque quase nunca os eventos são amplamente divulgados!), e nos damos conta de que ali, bem ali na nossa frente, acontecerá uma apresentação teatral, de dança, ou musical. Uma peça infantil, uma dança contemporânea, ou - melhor ainda -um sambinha, um chorinho, um blues, ou um jazz. E pior ainda - de excelente qualidade!! Gente boa, como diria a professora Osmandina.


Neste final de semana foi-nos permitido experienciar um desses instantes extáticos na Praça do Papa, no festival I Love Jazz 2010, evento que traz músicos dos mais variados países (incluindo o Brasil) ao Brasil, passando por Belo Horizonte, São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro (fica a dica). Marcado seu início para as 17 horas, o público já se antecipara em se distribuir pela praça: sentados nas cadeiras do evento ou trazidas de casa, espalhados pela grama, alguns bem equipados com vinhos, taças, saca-rolhas e balde de gelo, para o tin-tin, outros só com o vinho e os copos de plástico mesmo, para o clap-clap.







Uns com olhos bem atentos, outros com ouvidos bem abertos, já dizia o Sérgio Sampaio. No fim, todos com a mesma intenção: curtir uma boa música, um belo tributo a Ella Fitzgerald com o grupo Happy Feet Jazz Band, uma variante vertiginosa do jazz ao blues com a argentina Antigua Jazz Band, e o bom e velho jazz americano do The Judy Carmichael Seven.
É incrível ver refletido o efeito que o jazz provoca nas pessoas com seu ritmo "fora de tempo", com seus instrumentos de sopro roucos, com seus instrumentos de percussão um tanto excêntricos. Um caminho entre o fascínio e a estranheza. É igualmente tocante observar esse estilo incialmente gerado no ventre dos guetos, dos pobres e dos negros, agora exaltado por ricos e brancos. Questão histórica mesmo. E questão de bom gosto. Uma bela história que não se deve deixar jamais esquecer. A alma negra habita o jazz, porque dela foi gerado, parido, e criado. Não nos esqueçamos disso, dessa força, essa intrigante força que a verdadeira boa música tem de atravessar, de persistir, de transcender, e de estar presente e ao vivo, num dia de julho, num dia de praça, de vinho, de frio e de paz.





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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Brinquedos Estrela 1987

Minha geeeeeeeeeeeeeeeeeente!!!! Eu estava no rastro desse vídeo faz um século!!! Quem não se lembra desse jingle!?!?!? Agora duas coisas me foram estranhas: uma é que, em minha memória, a propaganda terminava com todas as crianças correndo em direção a um hall repleto de brinquedos Estrela!!! Terá sido fantasia minha!?!?!? E outra é que não me recordo da existência das garotas lésbicas (Les Girls)!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Bom, no mais, aproveitem!!!
(Vide link pro youtube)

Jingle:

A estrela é nossa companheira, nossa brincadeira, nossa diversão.
A estrela entende a gente, traz sempre pra gente uma nova invenção.
Todo segredo, de um brinquedo, vive na nossa emoção.
Toda criança, tem uma Estrela, dentro do coração.
Meu Querido Poney, Sapeca e Bambina,Moranguinho e sua coleção.
Ponte Car, Kork, Comandos em Ação, Jogo da Operação
Pimenta e Lig, Escolinha da Moda, Chuquinha, Trombada e Dragão.
E os Super Powers protegem a Barbie, a estrela da constelação.
Todo segredo de um brinquedo, vive na nossa emoção
Toda criança tem uma estrela, dentro do coração.
A Estrela estrelando, brincando com a gente, e a gente brincando feliz.
A vida é um sonho, e o sonho é da gente, criança estrelando feliz.
Todo segredo de um brinquedo, vive na nossa emoção.
Toda criança tem uma estrela, dentro do coração.
Toda criança tem uma estrela, dentro do coração.



http://www.youtube.com/watch?v=RRsAD_MvZpQ&feature=player_embedded

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Nunca é tarde, sempre é tarde (Sílvio Fiorani)

Este conto foi retirado de minha memória do livro "Contos contemporâneos", que tivemos que estudar no ensino médio. Do nada, o título me ocorria, e me corria, até enfim sair, e entrar no blog. Vamos a ele:



Conseguiu aprontar-se mas não teve tempo de guardar o material de maquiagem espalhado sobre a penteadeira. Olhou-se no espelho. Nem bonita, nem feia. Secretária. Sou uma secretária, pensou, procurando conscientizar-se. Não devo ser, no trabalho, nem bonita, nem feia. Devo me pintar, vestir-me bem, mas sem exagero. Beleza mesmo é pra fim-de-semana. Nem bonita, nem feia, disse consigo mesma. Concluiu que não havia tempo nem para o café. Cruzou a sala e o hall em disparada, na direção da porta de saída, ao mesmo tempo em que gritava para a mãe envolvida pelos vapores da cozinha, eu como alguma coisa lá mesmo. Sempre tal alguém com alguma bolachinha disponível. Café nunca falta. A mãe reclamou mais uma vez. Você acaba doente, Su. Assim não pode. Assim, não. Su, enlouquecida pela pressa, nada ouviu. Poucas vezes ouvia o que a mãe lhe dizia. Louca de pressa, ia sair, avançou a mão para a maçaneta da porta e assustou-se. A campainha tocou naquele exato momento. Quem haveria de ser àquela hora? A campainha era insistente. Algum dedo nervosos apertava-a sem tréguas. A campainha. Su acordou finalmente com o tilintar vibrante do despertar Westclox e se deu conta de que sequer havia se levantado. Raios. Tudo por fazer. Mesmo que acordasse em tempo, tinha sempre que correr, correr. Tinha tudo cronometrado, desde o levantar-se até o retoque do batom e o perfumezinho final. Exploit da Atkinsons. Perfume quente. Mais ou menos quente. Esqueceu onde havia deixado o relógio de pulso . Perambulou nervosamente pela casa procurando-o. Atrasou alguns preciosos minutos. A mãe achou-o sobre a mesinha do telefone. Su colocou-o no pulso. Viu as horas. Havia conseguido aprontar-se, mas não teve tempo de guardar o material de maquiagem espalhado sobre a penteadeira. Olhou-se no espelho. Nem bonita, nem feia, pensou duas vezes. Vou ficar bonita mesmo só no sábado. Não havia tempo nem para o café. Cruzou em disparada a sala e o hall, em direção à porta de saída, ao mesmo tempo em que gritava para a mãe, bolachinha disponível. Avançou a mão para a fechadura e assustou-se com o toque insistente da campainha. Algum dedo nervoso. O Westclox. Su acordou e deu-se conta mais uma vez da trágica e permanente verdade de que ainda não estava pronta(!) Levantou-se de um ímpeto. Correu ao banheiro, voltou do banheiro, vestiu-se com a roupa estrategicamente deixada sobre a cadeira na noite anterior. Ao sentar-se mais uma vez frente ao espelho, notou que, embora não tivesse ainda se pintado, o material de maquiagem já estava espalhado sobre a penteadeira. O batom aberto e usado, o Exploit desastradamente destampado, evaporando. O despertador tocou novamente. Ou tocou finalmente. E estava com toda corda, pois demorou a silenciar. Mesmo assim, Su andou pela casa toda, tentando desesperadamente acordar-se. Ocorreu afinal a idéia de pedir ajuda à mãe. Esta, envolvida pelos vapores da cozinha, mostrou-se compreensiva. Está bem, Su. Espere só um instantinho que eu vou lá no quarto te acordar.




Silvio Fiorani

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Não Identificado (Caetano Veloso)

Eu vou fazer uma canção pra ela
Uma canção singela, brasileira
Para lançar depois do carnaval

Eu vou fazer um iê-iê-iê romântico
Um anticomputador sentimental

Eu vou fazer uma canção de amor
Para gravar um disco voador

Uma canção dizendo tudo a ela
Que ainda estou sozinho, apaixonado
Para lançar no espaço sideral

Minha paixão há de brilhar na noite
No céu de uma cidade do interior
Como um objeto não identificado

sábado, 23 de janeiro de 2010

Inércia

O retrato emoldurado do tempo
É o fio que tece meus dias
Em tom cinzento, desbotado

Tudo pára,
Quando o que me falta
É a última sílaba
Do meu português errado



Priscila Catão
15/03/09
14h12

sábado, 24 de outubro de 2009

Mães Judias (texto de Luís Fernando Veríssimo)

Diz que quatro mães judias se encontraram no céu. Como não podia deixar de ser, a conversa toda é sobre os filhos.


- Não posso me queixar - diz a primeira. - Meu filho, até hoje, só me deu felicidade. Um santo. E na Terra, por causa dele, todo mundo só fala em caridade, em virtude, em bons sentimentos.


- Seu filho é. . . ? - pergunta a segunda.
- Jesus Cristo! - diz a primeira. E, inclinando-se para frente, em tom confidencial e com um gesto que indica tudo em volta: - O dono disto aqui.
- Não é do pai dele?
- Bem. . . É da família.


Agora, alegria, alegria, quem me dá é o meu filho - diz a Segunda mãe. - Ach, como eu me orgulho dele. Na Terra, por causa dele, todo mundo só fala em justiça, em mudanças sociais, em solidariedade humana.
- Como é o nome dele?
- Karl. Karl Marx.
- Hmmm - fazem as outras, apertando a boca.
- O Shnuga - suspira a mãe de Marx, lembrando o seu apelido de bebê.


- E o meu filho? - diz a terceira - Um professor. Este sim é para uma mãe se orgulhar. Inteligeeeeeente! Um crânio. Na Terra, por causa dele, todo mundo só fala no Universo, na relatividade, nos buracos negros. . .
- Quem é ele?
- O Beto.
- Beto?
- Einstein.
- Ah.


Falta falar a quarta mãe e as outras três se viram para ela.
- Eu nem quero falar porque vocês vão ficar com inveja de mim - diz ela.
- Fala.
- Que filho!
- Quem é?
- Um doutor.
- O que foi que ele fez?
- Por causa dele, na Terra, todo mundo só fala na mãe.


E a mãe de Freud fica sorrindo, deixando-se admirar pelas outras três.
Filho era aquele!





(Luís Fernando Veríssimo)