................................................... Ensaios e experimentos no universo das artes .............................................................

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Fragmentos e enxertos

A presença real do amado: uma força


"Ora, ‘real’ não significa uma pessoa [real, da realidade], mas aquilo que, dessa pessoa, desperta (...) uma força que faz com que eu seja o que eu sou e sem a qual eu não mais seria consistente. O real é simplesmente a vida no outro, a força de vida que anima e atravessa o seu corpo. É muito difícil distinguir nitidamente essa força que emana [do amado] (...) dessa outra força em mim (...). Muito difícil, na medida em que essas forças, na verdade, são uma mesma e única coluna energética, um eixo vital e impessoal que não pertence nem a um nem ao outro parceiro. Difícil também porque essa força única não tem nenhum símbolo nem representação que possa significá-la. (...) O real é irrepresentável, [é] a energia que garante (...) a consistência (...) do laço comum de amor [dos parceiros]."




A presença simbólica do amado: um ritmo


“... se o estatuto real [do amado] é ser uma força estranha que liga como uma ponte de energia os dois parceiros (...), o estatuto simbólico [do amado] é ser o ritmo dessa força. (...) O ritmo é, efetivamente, a mais primitiva expressão simbólica do desejo (...). A força de impulsão desejante é real porque é em si irrepresentável, mas as variações rítmicas dessa força são simbólicas, porque são, ao contrário, representáveis. (...) Se considero [o amado] insubstituível, é porque meu desejo se modelou progressivamente pelas sinuosidades do fluxo vibrante do seu próprio desejo. Ele é considerado insubstituível porque ninguém mais poderia acompanhar tão finamente o ritmo do meu desejo. (...) Como se as pulsações da sua sensibilidade dançassem na mesma cadência que as minhas próprias pulsações (...). Assim a cadência do seu desejo se harmoniza com a minha própria cadência, e cada uma das variações da sua tensão responde em eco a cada uma das minhas. Algumas vezes, o encontro é suave e progressivo; outras, violento e imediato. Entretanto (...) as satisfações resultantes continuam sendo para cada um dos parceiros satisfações sempre singulares, parciais e discordantes. Nossas trocas se afinam, mas nossas satisfações desafinam. Elas desafinam, porque são obtidas por ocasião de momentos diferentes e em intensidades desiguais [afinal, como seres humanos, são inevitavelmente pessoas diferentes e desiguais]”



Trechos de "O Livro da Dor e do Amor", de J.-D. Nasio ...

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Bom é...

Amor eterno
Amor perdido
Amor-perfeito
Amor devido
Amor cego
Amor visível
Amor palpável
Amor perigo
...
...
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Bom mesmo é amor vivido


Priscila Catão
17/07/03
17h


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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

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"Essa 'magia lenta' que é a psicanálise..." (M.R. Kehl)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Desdobramentos

A sensibilidade que se traduz assim...
Valeu, Andréa, por tudo, por muito...


Eis que o papel no acaso se tornou. De uma vez se fez um alguém, e enquanto as palavras traduziam-se em possibilidades, as ruas se escreviam como palavras. A luz cedeu lugar ao encontro. Casas transformaram-se em gestos, portões em emoções. Cores refizeram-se sensações. O que era certo virou raro, e inexato fez-se singular. Abrigado converteu-se em construído. A beleza se assumiu como clareza. O fiel se concretizou sublime. O sonho acordou e logo tratou de tornar-se realidade. Foi aí que a escrita revelou-se afinidade, o tempo ocupou-se de ser sentido, e o amor, transcendendo, declarou-se amizade.

(Andréa Silveira)

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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Revolução das Letras

Texto usado no artigo "Sublima-dor: considerações sobre dor e sublimação nos limites do pulsional", com a proposta de uma escrita que dá margem a outras significações, quando se faz a substituição das palavras à revelia dos seus desejos.


REVOLUÇÃO DAS LETRAS

Papel quis ser desencontro, viveiro transformou-se em silêncio. Abismo fez as vezes da luz, uma vez que vez cismou em ser morte. Ruas transfiguraram-se em letras, casas optaram por ser restos. Portões viraram buracos, e cores se firmaram como vazios. Certo decidiu ser cego. Escrita insistiu em ser dor. Abrigado se fez perdido. Caminho tomou o lugar da beleza. Nada substituiu o sonho. Fiel acabou sendo cruel. O amor fugiu e foi ser tempo. Enciumado, o tempo converteu-se em amor.


Assim sendo...


Era uma vez...

Um viveiro de palavras

Um distraído papel e...



Luz!



Por entre as ruas

Casas se espalham

Abrem seus portões

Criam cores infindas

Revelam o ponto certo

De um espaço abrigado

Na beleza entre o dito

E o que há de ser dito.



Nesse espaço

Surge ela.

É a escrita que vem

Essa escrita que não cala

Que gravita o sonho

No fiel tempo inexato do amor.


Priscila Catão
23/08/10
23h58

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

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Há algo que jamais se esclareceu
Onde foi exatamente que larguei
Naquele dia mesmo
O leão que sempre cavalguei

Lá mesmo esqueci que o destino
Sempre me quis só
No deserto sem saudade, sem remorso só
Sem amarras, barco embriagado ao mar


Inverno
(Adriana Calcanhotto)

domingo, 1 de agosto de 2010

Jazz e o 'jeitin' mineiro de se viver


Que Belo Horizonte só não é perfeita porque não tem praia, isso é fato. E é justamente diante dessa falta que o mineiro aproveita seus fins-de-semana em parques e praças, que no final das contas acaba virando um mar... de gente. Mas o que tanto os mineiros procuram nesses espaços públicos, tão estáticos e repletos de mesmice? Aí é onde Minas faz a diferença, sobretudo em julho, quando todos desengavetam seus sobretudos e vão curtir um friozinho. Frio básico, nem muito, nem pouco. A diferença é que, de quando em vez - e em julho, de vez em sempre - encontramos de surpresa os palcos lá montados (sim, de surpresa, porque quase nunca os eventos são amplamente divulgados!), e nos damos conta de que ali, bem ali na nossa frente, acontecerá uma apresentação teatral, de dança, ou musical. Uma peça infantil, uma dança contemporânea, ou - melhor ainda -um sambinha, um chorinho, um blues, ou um jazz. E pior ainda - de excelente qualidade!! Gente boa, como diria a professora Osmandina.


Neste final de semana foi-nos permitido experienciar um desses instantes extáticos na Praça do Papa, no festival I Love Jazz 2010, evento que traz músicos dos mais variados países (incluindo o Brasil) ao Brasil, passando por Belo Horizonte, São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro (fica a dica). Marcado seu início para as 17 horas, o público já se antecipara em se distribuir pela praça: sentados nas cadeiras do evento ou trazidas de casa, espalhados pela grama, alguns bem equipados com vinhos, taças, saca-rolhas e balde de gelo, para o tin-tin, outros só com o vinho e os copos de plástico mesmo, para o clap-clap.







Uns com olhos bem atentos, outros com ouvidos bem abertos, já dizia o Sérgio Sampaio. No fim, todos com a mesma intenção: curtir uma boa música, um belo tributo a Ella Fitzgerald com o grupo Happy Feet Jazz Band, uma variante vertiginosa do jazz ao blues com a argentina Antigua Jazz Band, e o bom e velho jazz americano do The Judy Carmichael Seven.
É incrível ver refletido o efeito que o jazz provoca nas pessoas com seu ritmo "fora de tempo", com seus instrumentos de sopro roucos, com seus instrumentos de percussão um tanto excêntricos. Um caminho entre o fascínio e a estranheza. É igualmente tocante observar esse estilo incialmente gerado no ventre dos guetos, dos pobres e dos negros, agora exaltado por ricos e brancos. Questão histórica mesmo. E questão de bom gosto. Uma bela história que não se deve deixar jamais esquecer. A alma negra habita o jazz, porque dela foi gerado, parido, e criado. Não nos esqueçamos disso, dessa força, essa intrigante força que a verdadeira boa música tem de atravessar, de persistir, de transcender, e de estar presente e ao vivo, num dia de julho, num dia de praça, de vinho, de frio e de paz.





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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Brinquedos Estrela 1987

Minha geeeeeeeeeeeeeeeeeente!!!! Eu estava no rastro desse vídeo faz um século!!! Quem não se lembra desse jingle!?!?!? Agora duas coisas me foram estranhas: uma é que, em minha memória, a propaganda terminava com todas as crianças correndo em direção a um hall repleto de brinquedos Estrela!!! Terá sido fantasia minha!?!?!? E outra é que não me recordo da existência das garotas lésbicas (Les Girls)!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Bom, no mais, aproveitem!!!
(Vide link pro youtube)

Jingle:

A estrela é nossa companheira, nossa brincadeira, nossa diversão.
A estrela entende a gente, traz sempre pra gente uma nova invenção.
Todo segredo, de um brinquedo, vive na nossa emoção.
Toda criança, tem uma Estrela, dentro do coração.
Meu Querido Poney, Sapeca e Bambina,Moranguinho e sua coleção.
Ponte Car, Kork, Comandos em Ação, Jogo da Operação
Pimenta e Lig, Escolinha da Moda, Chuquinha, Trombada e Dragão.
E os Super Powers protegem a Barbie, a estrela da constelação.
Todo segredo de um brinquedo, vive na nossa emoção
Toda criança tem uma estrela, dentro do coração.
A Estrela estrelando, brincando com a gente, e a gente brincando feliz.
A vida é um sonho, e o sonho é da gente, criança estrelando feliz.
Todo segredo de um brinquedo, vive na nossa emoção.
Toda criança tem uma estrela, dentro do coração.
Toda criança tem uma estrela, dentro do coração.



http://www.youtube.com/watch?v=RRsAD_MvZpQ&feature=player_embedded

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Nunca é tarde, sempre é tarde (Sílvio Fiorani)

Este conto foi retirado de minha memória do livro "Contos contemporâneos", que tivemos que estudar no ensino médio. Do nada, o título me ocorria, e me corria, até enfim sair, e entrar no blog. Vamos a ele:



Conseguiu aprontar-se mas não teve tempo de guardar o material de maquiagem espalhado sobre a penteadeira. Olhou-se no espelho. Nem bonita, nem feia. Secretária. Sou uma secretária, pensou, procurando conscientizar-se. Não devo ser, no trabalho, nem bonita, nem feia. Devo me pintar, vestir-me bem, mas sem exagero. Beleza mesmo é pra fim-de-semana. Nem bonita, nem feia, disse consigo mesma. Concluiu que não havia tempo nem para o café. Cruzou a sala e o hall em disparada, na direção da porta de saída, ao mesmo tempo em que gritava para a mãe envolvida pelos vapores da cozinha, eu como alguma coisa lá mesmo. Sempre tal alguém com alguma bolachinha disponível. Café nunca falta. A mãe reclamou mais uma vez. Você acaba doente, Su. Assim não pode. Assim, não. Su, enlouquecida pela pressa, nada ouviu. Poucas vezes ouvia o que a mãe lhe dizia. Louca de pressa, ia sair, avançou a mão para a maçaneta da porta e assustou-se. A campainha tocou naquele exato momento. Quem haveria de ser àquela hora? A campainha era insistente. Algum dedo nervosos apertava-a sem tréguas. A campainha. Su acordou finalmente com o tilintar vibrante do despertar Westclox e se deu conta de que sequer havia se levantado. Raios. Tudo por fazer. Mesmo que acordasse em tempo, tinha sempre que correr, correr. Tinha tudo cronometrado, desde o levantar-se até o retoque do batom e o perfumezinho final. Exploit da Atkinsons. Perfume quente. Mais ou menos quente. Esqueceu onde havia deixado o relógio de pulso . Perambulou nervosamente pela casa procurando-o. Atrasou alguns preciosos minutos. A mãe achou-o sobre a mesinha do telefone. Su colocou-o no pulso. Viu as horas. Havia conseguido aprontar-se, mas não teve tempo de guardar o material de maquiagem espalhado sobre a penteadeira. Olhou-se no espelho. Nem bonita, nem feia, pensou duas vezes. Vou ficar bonita mesmo só no sábado. Não havia tempo nem para o café. Cruzou em disparada a sala e o hall, em direção à porta de saída, ao mesmo tempo em que gritava para a mãe, bolachinha disponível. Avançou a mão para a fechadura e assustou-se com o toque insistente da campainha. Algum dedo nervoso. O Westclox. Su acordou e deu-se conta mais uma vez da trágica e permanente verdade de que ainda não estava pronta(!) Levantou-se de um ímpeto. Correu ao banheiro, voltou do banheiro, vestiu-se com a roupa estrategicamente deixada sobre a cadeira na noite anterior. Ao sentar-se mais uma vez frente ao espelho, notou que, embora não tivesse ainda se pintado, o material de maquiagem já estava espalhado sobre a penteadeira. O batom aberto e usado, o Exploit desastradamente destampado, evaporando. O despertador tocou novamente. Ou tocou finalmente. E estava com toda corda, pois demorou a silenciar. Mesmo assim, Su andou pela casa toda, tentando desesperadamente acordar-se. Ocorreu afinal a idéia de pedir ajuda à mãe. Esta, envolvida pelos vapores da cozinha, mostrou-se compreensiva. Está bem, Su. Espere só um instantinho que eu vou lá no quarto te acordar.




Silvio Fiorani