O retrato emoldurado do tempo
É o fio que tece meus dias
Em tom cinzento, desbotado
Tudo pára,
Quando o que me falta
É a última sílaba
Do meu português errado
Priscila Catão
15/03/09
14h12
................................................... Ensaios e experimentos no universo das artes .............................................................
sábado, 23 de janeiro de 2010
sábado, 24 de outubro de 2009
Mães Judias (texto de Luís Fernando Veríssimo)
Diz que quatro mães judias se encontraram no céu. Como não podia deixar de ser, a conversa toda é sobre os filhos.
- Não posso me queixar - diz a primeira. - Meu filho, até hoje, só me deu felicidade. Um santo. E na Terra, por causa dele, todo mundo só fala em caridade, em virtude, em bons sentimentos.
- Seu filho é. . . ? - pergunta a segunda.
- Jesus Cristo! - diz a primeira. E, inclinando-se para frente, em tom confidencial e com um gesto que indica tudo em volta: - O dono disto aqui.
- Não é do pai dele?
- Bem. . . É da família.
- Jesus Cristo! - diz a primeira. E, inclinando-se para frente, em tom confidencial e com um gesto que indica tudo em volta: - O dono disto aqui.
- Não é do pai dele?
- Bem. . . É da família.
Agora, alegria, alegria, quem me dá é o meu filho - diz a Segunda mãe. - Ach, como eu me orgulho dele. Na Terra, por causa dele, todo mundo só fala em justiça, em mudanças sociais, em solidariedade humana.
- Como é o nome dele?
- Karl. Karl Marx.
- Hmmm - fazem as outras, apertando a boca.
- O Shnuga - suspira a mãe de Marx, lembrando o seu apelido de bebê.
- Como é o nome dele?
- Karl. Karl Marx.
- Hmmm - fazem as outras, apertando a boca.
- O Shnuga - suspira a mãe de Marx, lembrando o seu apelido de bebê.
- E o meu filho? - diz a terceira - Um professor. Este sim é para uma mãe se orgulhar. Inteligeeeeeente! Um crânio. Na Terra, por causa dele, todo mundo só fala no Universo, na relatividade, nos buracos negros. . .
- Quem é ele?
- O Beto.
- Beto?
- Einstein.
- Ah.
- Quem é ele?
- O Beto.
- Beto?
- Einstein.
- Ah.
Falta falar a quarta mãe e as outras três se viram para ela.
- Eu nem quero falar porque vocês vão ficar com inveja de mim - diz ela.
- Fala.
- Que filho!
- Quem é?
- Um doutor.
- O que foi que ele fez?
- Por causa dele, na Terra, todo mundo só fala na mãe.
- Eu nem quero falar porque vocês vão ficar com inveja de mim - diz ela.
- Fala.
- Que filho!
- Quem é?
- Um doutor.
- O que foi que ele fez?
- Por causa dele, na Terra, todo mundo só fala na mãe.
E a mãe de Freud fica sorrindo, deixando-se admirar pelas outras três.
Filho era aquele!
Filho era aquele!
(Luís Fernando Veríssimo)
sábado, 25 de julho de 2009
Som... música... ação!

Eis o que, de fato, pode-se chamar de um belo espetáculo, um verdadeiro show, um ingresso bem pago. Sob uma pele espelhada e penas de pavão azuis-arrouxeadas, ele refletia seus fachos de luz na inexata direção de nossos olhos, e exibia energia, sensualidade, beleza e condicionamento físico nada senis. Um sujeito inquietado, inquietante. Espelho de todos nós. Sobre um divã, repousavam as peças de figurino, requisitadas de tempos em tempos. Entre os vestires e os desvestires, cobertas e descobertas, seguia-se uma apresentação singular. Os elementos parecem ter sido escolhidos com uma minúncia impecável, como os cuidados de gestante, de mulher barriguda, em gravidez gemelar, que ao final vem a dar à luz um repertório e uma performance inevitavelmente provocantes. Dá fome, dá sede, dá tesão, dá vontade de sorrir, de chorar, e de ligar para todos os meus. Sua voz, é claro, dispensa comentários. Penso que não se pode passar pela vida sem nunca ter assistido. Show do Ney: eu recomendo.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
Sempre coca-cola
Agora mais essa. Já não bastava se fazer presente em nossas brincadeiras infantis com o clássico jingle “Coca-cola é isso aí, não tem sabor como esse aqui...”, chega-nos a mais nova propaganda do refrigerante mais vendido no mundo. Eis que se homenageia o dia das mães (depois dos grandes investimentos nas propagandas de Natal, Ano Novo, e Carnaval, obviamente) em trinta segundos de imagens. Envolto numa suave e instigante trilha sonora, um menino, acompanhado de seu melhor amigo, o cão, observa o crescimento do bolo dentro de um forno. Em seguida, ele encontra a tigela dos sonhos, com aquele delicioso restinho de massa de bolo que fica ali grudado, um dos pequenos prazeres mais desejados entre meninos e meninas de todo o mundo, fonte de discórdias entre irmãos na disputa pela última colherada. Extasiado pelo ato de, escondido, saborear os restos de bolo grudados na colher de pau e deliciar-se com seus dedos de chocolate, o menino é flagrado pela mãe, uma mãe que, não, não chama a atenção de seu filho com aquela estranha teoria de que, se ele comer massa crua de bolo, vai ter dor de barriga, mas uma mãe com um olhar doce e cuidador, e que lhe traz algo ainda melhor (meu Deus, o que poderia ser melhor do que resto de massa de bolo na tigela!!). Silêncio breve. Coca-cola no chão, retorno da trilha sonora, sorriso espantado no rosto do menino, sorriso carinhoso no rosto da mãe. Abraços, carinhos, e a frase: “Quer saber, mãe? Tudo o que você faz tem um sabor único, porque você é essa coca-cola toda!”. Realmente, é de se espantar. Incrível como a publicidade nos surpreende cada vez mais, associando o prazer de se beber uma coca-cola às lembranças mais íntimas de nossos desejos mais antigos.
Não, não, a propaganda é o mínimo. O cotidiano grita. Quantas vezes, nos estabelecimentos, flagramo-nos pedindo coca-cola quase que automaticamente? Perdemos até o direito de nos questionar se, realmente, realmente, desejamos toma-la naquele momento? Por que ela, enigmaticamente, tornou-se a primeira opção que vem à mente, seja do cliente, seja do garçom?
Sim, sim, dir-me-iam que vivemos num sistema capitalista, onde prevalecem a liberdade de expressão e a concorrência de mercado com a lei da melhor oferta, etc, etc, etc. Não é esta a minha questão. A questão é, se estamos no sistema capitalista, com liberdade de expressão, com concorrência de mercado, com lei da melhor oferta, o que falta, afinal, às grandes empresas de água mineral, para investirem mais em seus produtos? Acaso não sabem que o corpo humano é formado, em média, por 70% de água, e não de coca-cola? Ou não têm o conhecimento de que pessoas estão passando a matar sua sede, não mais com água, mas com coca-cola? Não vêem que a repercussão mundial a respeito de um planeta a caminho de um colapso é devido à escassez de água, e não de coca-cola?
Esqueçamos. Ignoremos. Bebamos coca-cola.
Não, não, a propaganda é o mínimo. O cotidiano grita. Quantas vezes, nos estabelecimentos, flagramo-nos pedindo coca-cola quase que automaticamente? Perdemos até o direito de nos questionar se, realmente, realmente, desejamos toma-la naquele momento? Por que ela, enigmaticamente, tornou-se a primeira opção que vem à mente, seja do cliente, seja do garçom?
Sim, sim, dir-me-iam que vivemos num sistema capitalista, onde prevalecem a liberdade de expressão e a concorrência de mercado com a lei da melhor oferta, etc, etc, etc. Não é esta a minha questão. A questão é, se estamos no sistema capitalista, com liberdade de expressão, com concorrência de mercado, com lei da melhor oferta, o que falta, afinal, às grandes empresas de água mineral, para investirem mais em seus produtos? Acaso não sabem que o corpo humano é formado, em média, por 70% de água, e não de coca-cola? Ou não têm o conhecimento de que pessoas estão passando a matar sua sede, não mais com água, mas com coca-cola? Não vêem que a repercussão mundial a respeito de um planeta a caminho de um colapso é devido à escassez de água, e não de coca-cola?
Esqueçamos. Ignoremos. Bebamos coca-cola.
GRAFO DO DESEJO NO CAPITALISMO
Link para assistir à propaganda no youtube:
sexta-feira, 19 de junho de 2009
NO TRÂNSITO
Maceió, nove e meia da noite, rua Álvaro Calheiros, sinal vermelho. Uma média de seis crianças, faixa etária variando entre 4 a 9 anos, soltas, inquietas, brincando. Uma delas me abordou, perguntando o óbvio e o inevitável:
- Ei, me dá um trocado?
- Ô, rapaz, tenho não, viu? – respondi – e o que cê tá fazendo aqui até essa hora? Cadê sua mãe?
- Tá em casa... ei, me dá essa blusa?
A tal blusa era o meu jaleco. E eu ainda pensava nessa mãe, que descansava em casa enquanto a filha buscava inocentemente o pão, ou melhor, o dez centavos de cada dia para o sustento de sua casa, afinal, ela tem uma mãe e deve assumir a responsabilidade por isso. Não saberia ela que existem métodos contraceptivos nesses dias???
- Não é blusa, é “bata”! – disse eu.
- Então me dá essa “bata”? Ei, tu é de hospital, é?
- Sou, sou médica! – não era médica, era estudante de medicina. Não sei porque eu disse dessa forma, mas depois pensei: “pra que eu vou explicar que não sou médica, mas sim estudante de medicina, pra uma criança que nem sequer tem tempo de estabelecer uma conversa, pois já anseava por abordar um outro carro, uma outra pessoa que finalmente desse o que ela queria? Talvez nem houvesse tempo: “não sou médica, sou estud...”. Enfim, respondi a inverdade, ao mesmo tempo em que o sinal abria, e eu dava partida no carro, pedindo para que ela se afastasse, para o carro não bater nela, e de certa forma esse pedido saiu repartido devido à minha pressa pro sinal não fechar e o cuidado com a menina: “Ei, tenho que..., o sinal abr..., cuidado, se afas...te”. E o sinal fechou novamente.
Outra vez, uma outra criança, um pouco menor, abordou-me.
-Ei, dá um trocado?
- Tenho não, meu filho. Cadê sua m...
- Nem dez centavos?
- Tenho não. Como vocês vão voltar pra casa?
- De ônibus. Dá um trocado?
- E sua mãe, onde está?
- Tá em casa. Dá um trocado?
- Menino, tá tarde, você devia tá em casa e...
- Dá um trocado, vai?
- Olha, tenho que ir, o sinal já vai abrir (já o prevenindo!), até log...
- Dá um trocado?
E parti.
E fiquei pensando nesse menino, um verdadeiro homem de família, que dá o sustento da casa, parecendo um pequeno gravadorzinho ambulante, ensinado a pedir, a pedir e a pedir, a responder e pedir, a insistir e pedir, a brincar e pedir (ou brincar de pedir?). Tudo bem, tudo bem, é para o bem da família. Afinal, eles sabem que a família vem em primeiro lugar, eles não querem deixar seus pais passarem necessidades, não pode faltar o leite do pai, ou as fraldas da mãe... poxa, é duro criá-los, ainda mais nessa idade...
E assim a estrada segue, abrigando em cada esquina esses pequenos gravadores bem treinados, à espera de um carro que lhe dê o que pedem, um carro que não seja como o meu!
- Ei, me dá um trocado?
- Ô, rapaz, tenho não, viu? – respondi – e o que cê tá fazendo aqui até essa hora? Cadê sua mãe?
- Tá em casa... ei, me dá essa blusa?
A tal blusa era o meu jaleco. E eu ainda pensava nessa mãe, que descansava em casa enquanto a filha buscava inocentemente o pão, ou melhor, o dez centavos de cada dia para o sustento de sua casa, afinal, ela tem uma mãe e deve assumir a responsabilidade por isso. Não saberia ela que existem métodos contraceptivos nesses dias???
- Não é blusa, é “bata”! – disse eu.
- Então me dá essa “bata”? Ei, tu é de hospital, é?
- Sou, sou médica! – não era médica, era estudante de medicina. Não sei porque eu disse dessa forma, mas depois pensei: “pra que eu vou explicar que não sou médica, mas sim estudante de medicina, pra uma criança que nem sequer tem tempo de estabelecer uma conversa, pois já anseava por abordar um outro carro, uma outra pessoa que finalmente desse o que ela queria? Talvez nem houvesse tempo: “não sou médica, sou estud...”. Enfim, respondi a inverdade, ao mesmo tempo em que o sinal abria, e eu dava partida no carro, pedindo para que ela se afastasse, para o carro não bater nela, e de certa forma esse pedido saiu repartido devido à minha pressa pro sinal não fechar e o cuidado com a menina: “Ei, tenho que..., o sinal abr..., cuidado, se afas...te”. E o sinal fechou novamente.
Outra vez, uma outra criança, um pouco menor, abordou-me.
-Ei, dá um trocado?
- Tenho não, meu filho. Cadê sua m...
- Nem dez centavos?
- Tenho não. Como vocês vão voltar pra casa?
- De ônibus. Dá um trocado?
- E sua mãe, onde está?
- Tá em casa. Dá um trocado?
- Menino, tá tarde, você devia tá em casa e...
- Dá um trocado, vai?
- Olha, tenho que ir, o sinal já vai abrir (já o prevenindo!), até log...
- Dá um trocado?
E parti.
E fiquei pensando nesse menino, um verdadeiro homem de família, que dá o sustento da casa, parecendo um pequeno gravadorzinho ambulante, ensinado a pedir, a pedir e a pedir, a responder e pedir, a insistir e pedir, a brincar e pedir (ou brincar de pedir?). Tudo bem, tudo bem, é para o bem da família. Afinal, eles sabem que a família vem em primeiro lugar, eles não querem deixar seus pais passarem necessidades, não pode faltar o leite do pai, ou as fraldas da mãe... poxa, é duro criá-los, ainda mais nessa idade...
E assim a estrada segue, abrigando em cada esquina esses pequenos gravadores bem treinados, à espera de um carro que lhe dê o que pedem, um carro que não seja como o meu!
domingo, 14 de junho de 2009
De temps en temps
É tudo novo de novo, já dizia o Moska. Nesse intenso chacoalhar de idéias, minha vida virtualizada se divide entre os inúmeros recursos internáuticos que temos à mão, digo, aos olhos. É-me apresentado, então, num passo-a-passo audiovisual dedicado, o tal do blog. Espaço interessante, sim, porém penoso para quem anda destilando apenas pingos de idéias, por mais esforços que faça. Mas tudo é começo, e tudo é tempo. Começo é tempo.
Mais uma vez, Míriam, obrigada por me apontar caminhos!
Mais uma vez, Míriam, obrigada por me apontar caminhos!
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