................................................... Ensaios e experimentos no universo das artes .............................................................

domingo, 11 de setembro de 2011

TODA PAIXÃO

Toda paixão é labirinto
onde se perdem ateus e santos,
onde caravelas e jangadas precárias
desafiam a fúria insensata dos oceanos.

Sem mapas, sextantes, bússolas ou planos,
as paixões navegam cegas e loucas
acreditando que a pele é sempre a melhor roupa
enquanto exilam as próprias línguas nos céus de outras bocas.

Toda paixão quer ser eterna.
como as manhãs que rasgam a noite fria,
como alegria instantânea do sorriso
preso no retângulo da fotografia.

Por isso toda paixão odeia o tempo
que vive entre os números do relógio prisioneiro,
desorienta, ilude e faz os amantes acreditarem
que a hora é só uma mentira de ponteiros.


Toda Paixão (Mauro Iasi)


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quarta-feira, 29 de junho de 2011

DESFEITO EM LÁGRIMAS



Chorar. Ser tomado por uma lancinante e profunda vontade de chorar, ser perfurado por esta vontade, liquefazer-se, tornar-se líquido, tornar líquida a dor, desabar-se, entregar-se convulsivamente ao choro.
Deixar-se ser levado pela enxurrada que leva consigo os pilares de um mundo desmoronado. Desfazer-se em lágrimas.
Pausa para fluconazóis, nistatinas. Orientações.
Ninguém sabe desta dor do pranto.
Esvair-se, esconder-se no sumiço, diminmuir-se, encolher-se. Encolhe-se o corpo. Encolhe-se todo.
Chorar. É arrancar-lhe do peito um pedaço muito seu, é alcançar o umbigo da alma e roubar-lhe a estranha certeza de que tudo está bem.
Pausa para amigdalites, amoxicilinas, dipironas. Orientações.
O choro não espera.
Desfeito em lágrimas. Desfeito, defeito. Desfeito o defeito: refeito.


Imagem: "Mulher chorando" (Pablo Picasso)

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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Fragmentos e enxertos

A presença real do amado: uma força


"Ora, ‘real’ não significa uma pessoa [real, da realidade], mas aquilo que, dessa pessoa, desperta (...) uma força que faz com que eu seja o que eu sou e sem a qual eu não mais seria consistente. O real é simplesmente a vida no outro, a força de vida que anima e atravessa o seu corpo. É muito difícil distinguir nitidamente essa força que emana [do amado] (...) dessa outra força em mim (...). Muito difícil, na medida em que essas forças, na verdade, são uma mesma e única coluna energética, um eixo vital e impessoal que não pertence nem a um nem ao outro parceiro. Difícil também porque essa força única não tem nenhum símbolo nem representação que possa significá-la. (...) O real é irrepresentável, [é] a energia que garante (...) a consistência (...) do laço comum de amor [dos parceiros]."




A presença simbólica do amado: um ritmo


“... se o estatuto real [do amado] é ser uma força estranha que liga como uma ponte de energia os dois parceiros (...), o estatuto simbólico [do amado] é ser o ritmo dessa força. (...) O ritmo é, efetivamente, a mais primitiva expressão simbólica do desejo (...). A força de impulsão desejante é real porque é em si irrepresentável, mas as variações rítmicas dessa força são simbólicas, porque são, ao contrário, representáveis. (...) Se considero [o amado] insubstituível, é porque meu desejo se modelou progressivamente pelas sinuosidades do fluxo vibrante do seu próprio desejo. Ele é considerado insubstituível porque ninguém mais poderia acompanhar tão finamente o ritmo do meu desejo. (...) Como se as pulsações da sua sensibilidade dançassem na mesma cadência que as minhas próprias pulsações (...). Assim a cadência do seu desejo se harmoniza com a minha própria cadência, e cada uma das variações da sua tensão responde em eco a cada uma das minhas. Algumas vezes, o encontro é suave e progressivo; outras, violento e imediato. Entretanto (...) as satisfações resultantes continuam sendo para cada um dos parceiros satisfações sempre singulares, parciais e discordantes. Nossas trocas se afinam, mas nossas satisfações desafinam. Elas desafinam, porque são obtidas por ocasião de momentos diferentes e em intensidades desiguais [afinal, como seres humanos, são inevitavelmente pessoas diferentes e desiguais]”



Trechos de "O Livro da Dor e do Amor", de J.-D. Nasio ...

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Bom é...

Amor eterno
Amor perdido
Amor-perfeito
Amor devido
Amor cego
Amor visível
Amor palpável
Amor perigo
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...
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Bom mesmo é amor vivido


Priscila Catão
17/07/03
17h


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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

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"Essa 'magia lenta' que é a psicanálise..." (M.R. Kehl)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Desdobramentos

A sensibilidade que se traduz assim...
Valeu, Andréa, por tudo, por muito...


Eis que o papel no acaso se tornou. De uma vez se fez um alguém, e enquanto as palavras traduziam-se em possibilidades, as ruas se escreviam como palavras. A luz cedeu lugar ao encontro. Casas transformaram-se em gestos, portões em emoções. Cores refizeram-se sensações. O que era certo virou raro, e inexato fez-se singular. Abrigado converteu-se em construído. A beleza se assumiu como clareza. O fiel se concretizou sublime. O sonho acordou e logo tratou de tornar-se realidade. Foi aí que a escrita revelou-se afinidade, o tempo ocupou-se de ser sentido, e o amor, transcendendo, declarou-se amizade.

(Andréa Silveira)

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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Revolução das Letras

Texto usado no artigo "Sublima-dor: considerações sobre dor e sublimação nos limites do pulsional", com a proposta de uma escrita que dá margem a outras significações, quando se faz a substituição das palavras à revelia dos seus desejos.


REVOLUÇÃO DAS LETRAS

Papel quis ser desencontro, viveiro transformou-se em silêncio. Abismo fez as vezes da luz, uma vez que vez cismou em ser morte. Ruas transfiguraram-se em letras, casas optaram por ser restos. Portões viraram buracos, e cores se firmaram como vazios. Certo decidiu ser cego. Escrita insistiu em ser dor. Abrigado se fez perdido. Caminho tomou o lugar da beleza. Nada substituiu o sonho. Fiel acabou sendo cruel. O amor fugiu e foi ser tempo. Enciumado, o tempo converteu-se em amor.


Assim sendo...


Era uma vez...

Um viveiro de palavras

Um distraído papel e...



Luz!



Por entre as ruas

Casas se espalham

Abrem seus portões

Criam cores infindas

Revelam o ponto certo

De um espaço abrigado

Na beleza entre o dito

E o que há de ser dito.



Nesse espaço

Surge ela.

É a escrita que vem

Essa escrita que não cala

Que gravita o sonho

No fiel tempo inexato do amor.


Priscila Catão
23/08/10
23h58

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

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Há algo que jamais se esclareceu
Onde foi exatamente que larguei
Naquele dia mesmo
O leão que sempre cavalguei

Lá mesmo esqueci que o destino
Sempre me quis só
No deserto sem saudade, sem remorso só
Sem amarras, barco embriagado ao mar


Inverno
(Adriana Calcanhotto)

domingo, 1 de agosto de 2010

Jazz e o 'jeitin' mineiro de se viver


Que Belo Horizonte só não é perfeita porque não tem praia, isso é fato. E é justamente diante dessa falta que o mineiro aproveita seus fins-de-semana em parques e praças, que no final das contas acaba virando um mar... de gente. Mas o que tanto os mineiros procuram nesses espaços públicos, tão estáticos e repletos de mesmice? Aí é onde Minas faz a diferença, sobretudo em julho, quando todos desengavetam seus sobretudos e vão curtir um friozinho. Frio básico, nem muito, nem pouco. A diferença é que, de quando em vez - e em julho, de vez em sempre - encontramos de surpresa os palcos lá montados (sim, de surpresa, porque quase nunca os eventos são amplamente divulgados!), e nos damos conta de que ali, bem ali na nossa frente, acontecerá uma apresentação teatral, de dança, ou musical. Uma peça infantil, uma dança contemporânea, ou - melhor ainda -um sambinha, um chorinho, um blues, ou um jazz. E pior ainda - de excelente qualidade!! Gente boa, como diria a professora Osmandina.


Neste final de semana foi-nos permitido experienciar um desses instantes extáticos na Praça do Papa, no festival I Love Jazz 2010, evento que traz músicos dos mais variados países (incluindo o Brasil) ao Brasil, passando por Belo Horizonte, São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro (fica a dica). Marcado seu início para as 17 horas, o público já se antecipara em se distribuir pela praça: sentados nas cadeiras do evento ou trazidas de casa, espalhados pela grama, alguns bem equipados com vinhos, taças, saca-rolhas e balde de gelo, para o tin-tin, outros só com o vinho e os copos de plástico mesmo, para o clap-clap.







Uns com olhos bem atentos, outros com ouvidos bem abertos, já dizia o Sérgio Sampaio. No fim, todos com a mesma intenção: curtir uma boa música, um belo tributo a Ella Fitzgerald com o grupo Happy Feet Jazz Band, uma variante vertiginosa do jazz ao blues com a argentina Antigua Jazz Band, e o bom e velho jazz americano do The Judy Carmichael Seven.
É incrível ver refletido o efeito que o jazz provoca nas pessoas com seu ritmo "fora de tempo", com seus instrumentos de sopro roucos, com seus instrumentos de percussão um tanto excêntricos. Um caminho entre o fascínio e a estranheza. É igualmente tocante observar esse estilo incialmente gerado no ventre dos guetos, dos pobres e dos negros, agora exaltado por ricos e brancos. Questão histórica mesmo. E questão de bom gosto. Uma bela história que não se deve deixar jamais esquecer. A alma negra habita o jazz, porque dela foi gerado, parido, e criado. Não nos esqueçamos disso, dessa força, essa intrigante força que a verdadeira boa música tem de atravessar, de persistir, de transcender, e de estar presente e ao vivo, num dia de julho, num dia de praça, de vinho, de frio e de paz.





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