................................................... Ensaios e experimentos no universo das artes .............................................................

sexta-feira, 19 de junho de 2009

NO TRÂNSITO

Maceió, nove e meia da noite, rua Álvaro Calheiros, sinal vermelho. Uma média de seis crianças, faixa etária variando entre 4 a 9 anos, soltas, inquietas, brincando. Uma delas me abordou, perguntando o óbvio e o inevitável:
- Ei, me dá um trocado?
- Ô, rapaz, tenho não, viu? – respondi – e o que cê tá fazendo aqui até essa hora? Cadê sua mãe?
- Tá em casa... ei, me dá essa blusa?
A tal blusa era o meu jaleco. E eu ainda pensava nessa mãe, que descansava em casa enquanto a filha buscava inocentemente o pão, ou melhor, o dez centavos de cada dia para o sustento de sua casa, afinal, ela tem uma mãe e deve assumir a responsabilidade por isso. Não saberia ela que existem métodos contraceptivos nesses dias???
- Não é blusa, é “bata”! – disse eu.
- Então me dá essa “bata”? Ei, tu é de hospital, é?
- Sou, sou médica! – não era médica, era estudante de medicina. Não sei porque eu disse dessa forma, mas depois pensei: “pra que eu vou explicar que não sou médica, mas sim estudante de medicina, pra uma criança que nem sequer tem tempo de estabelecer uma conversa, pois já anseava por abordar um outro carro, uma outra pessoa que finalmente desse o que ela queria? Talvez nem houvesse tempo: “não sou médica, sou estud...”. Enfim, respondi a inverdade, ao mesmo tempo em que o sinal abria, e eu dava partida no carro, pedindo para que ela se afastasse, para o carro não bater nela, e de certa forma esse pedido saiu repartido devido à minha pressa pro sinal não fechar e o cuidado com a menina: “Ei, tenho que..., o sinal abr..., cuidado, se afas...te”. E o sinal fechou novamente.
Outra vez, uma outra criança, um pouco menor, abordou-me.
-Ei, dá um trocado?
- Tenho não, meu filho. Cadê sua m...
- Nem dez centavos?
- Tenho não. Como vocês vão voltar pra casa?
- De ônibus. Dá um trocado?
- E sua mãe, onde está?
- Tá em casa. Dá um trocado?
- Menino, tá tarde, você devia tá em casa e...
- Dá um trocado, vai?
- Olha, tenho que ir, o sinal já vai abrir (já o prevenindo!), até log...
- Dá um trocado?
E parti.
E fiquei pensando nesse menino, um verdadeiro homem de família, que dá o sustento da casa, parecendo um pequeno gravadorzinho ambulante, ensinado a pedir, a pedir e a pedir, a responder e pedir, a insistir e pedir, a brincar e pedir (ou brincar de pedir?). Tudo bem, tudo bem, é para o bem da família. Afinal, eles sabem que a família vem em primeiro lugar, eles não querem deixar seus pais passarem necessidades, não pode faltar o leite do pai, ou as fraldas da mãe... poxa, é duro criá-los, ainda mais nessa idade...
E assim a estrada segue, abrigando em cada esquina esses pequenos gravadores bem treinados, à espera de um carro que lhe dê o que pedem, um carro que não seja como o meu!

domingo, 14 de junho de 2009

De temps en temps

É tudo novo de novo, já dizia o Moska. Nesse intenso chacoalhar de idéias, minha vida virtualizada se divide entre os inúmeros recursos internáuticos que temos à mão, digo, aos olhos. É-me apresentado, então, num passo-a-passo audiovisual dedicado, o tal do blog. Espaço interessante, sim, porém penoso para quem anda destilando apenas pingos de idéias, por mais esforços que faça. Mas tudo é começo, e tudo é tempo. Começo é tempo.
Mais uma vez, Míriam, obrigada por me apontar caminhos!